domingo, 21 de março de 2010

A fina tira de papel esticada se sustentava trêmula, cada extremidade entre os três primeiros dedos de cada mão. As veias azuladas começavam no pulso e faziam uma rede que se estendia até os dedos magros, onde ficavam evidentes as unhas sujas e cumpridas de Dom Quixote. Repousou gentilmente a folha sobre a mesa e de lá tirou um pequeno bloco marrom-esverdeado que tinha o tamanho de uma unha - não de uma unha sua, mas de uma unha de polegar normal e bem tratada. Partiu a erva prensada com as unhas afiadas e começou a fragmentá-la de forma mecânica, até que seu conteúdo houvesse se desintegrado como uma folha seca que é esmagada.

Projetou-se para a frente e, de forma delicada, jogou o fumo sobre o papel, da mesma forma que um chef experiente espalha o tempero uniformemente numa iguaria cujo feitio é complicado e belo. Seus olhos azuis e inquietos pareciam não perder de vista nenhum detalhe da empreitada, e o topete loiro, que o fazia assemelhar-se a algo de Sting e James Dean, não balançava profusamente, como era de costume quando ele se movimentava. Apenas suas mãos se movimentavam, ajeitando o fumo que sobrava nas bordas e segurando novamente o papel na posição inicial.

Possuía a indiferença e a tristeza características de quem fica velho cedo demais, e parecia um nó cego na rede de pessoas que sorriam animadas no bordel. Na cadeira ao lado, uma dançarina particularmente velha e pelancuda sentava de costas no colo de um extasiado Sancho Pança, que olhava para seu quadril como se este fosse um hambúrguer na somália. Os braços finos da senhora erguiam-se na altura da cabeça, onde o cotovelo se dobrava de forma a permitir suas mãos pálidas acariciarem a face suada do gorducho. Se o aroma de cigarros e perfume barato partia dela ou se tratava de um odor permanente no local, era impossível definir no momento. Seu cabelo era de um loiro tingido cor de ovo, e resplandecia no topo de sua cabeça como um prato de miojo jogado sobre uma múmia.
Sancho, cuja massa corpórea tranquilamente ultrapassava os três dígitos, trocara seu aspecto modesto por um ar confiante de quem exalava masculinidade por cada poro de seu adiposo corpo.

Dom Quixote logo quebraria o encanto da bruxa sobre Sancho. Uma gota de suor escorreu por sua testa saliente, fruto da empreitada maconheirística que requeria tanto esmero e dedicação. Com os dedos indicadores, acariciou o fumo que jazia quase uniformemente sobre o papel estendido. A maconha localizava-se exatamente no meio do papel, enquanto as bordas inferior e superior se juntavam, e a borda inferior era agora empurrada pelos polegares com suavidade até encontrar o fumo. Usou os indicadores de modo a fazer pressão para que não restasse qualquer espaço vazio entre a seda e a maconha. A primeira enrolada sempre requer mais habilidade. Finalmente pareceu respirar e olhou em volta. Agora a puta velha, evidentemente chapada, cambaleava numa posição esquisita, em pé sobre as extremidades da cadeira de Sancho. Sorriu pela primeira vez na noite, e voltou ao fabuloso artesanato.

As luzes profusas do bordel escapavam pela janela e cortavam a madrugada como uma lâmina luminosa, insistindo em desafiar o sono da civilização, essa criatura magnífica que estarrece os estrangeiros e deixa os artistas loucos. O cigarro quase industrial que se materializava naquele momento recebia uma aura própria, ofuscando todas as vaginas e sorrisos do local. Girou lentamente o papelzinho em seus dedos. Segunda enrolada. Depois a terceira. Havia uma piteira pronta que ele havia preparado segundos antes com um pedaço de papel do maço de cigarros, antes de começar o baseado. Sabia a rotina relativamente simples que viria a seguir: colocaria a piteira no buraquinho do baseado, viraria-o ao contrário e bateria suavemente para o fumo descer, sem deixar espaços vazios. Depois usaria um fósforo para empurrar o fumo, então arracaria o papel de seda restante e dirigiria o baseado mágico a Sancho, para finalmente livrá-lo do feitiço da bruxa carcomida.

Antes disso, bastava dar a lambida final no papel para fixá-lo. Dirigiu o papel à boca, meteu a lígua pra fora e deslizou suavemente pelo papel áspero. Mas por alguma ironia cósmica, nunca chegou a ver seu beck perfeito - ao chegar com sua língua na metade do papel, pôde olhar pelo canto dos olhos apenas tempo suficiente para desviar a cabeça do objeto que vinha a seu encontro: a prostituta voadora que, após tropeçar com o calcanhar no braço da cadeira do gordinho, finalizaria sua fatídica trajetória aterrissando na mesa, derrubando todos os copos e jogando sua carcaça fácida sobre a obra de arte tão cuidadosamente elaborada por Quixote.

Os fragmentos de maconha projetaram-se para o alto, formando uma pequena e efêmera constelação de THC, para então repousar no chão embebido em cacos de vidro e cerveja quente. O papel de seda, meio molhado, meio amassado, parecia apenas uma casca vazia e sem vida a descansar entre os dedos ainda incrédulos do homem. Um Sancho surpreso levou as mãos a cabeça por dois segundos, antes de se dirigir ao chão para levantar a pobre velhaca.

Um Dom Quixote desolado olhou para os destroços de sua epopéia prematuramente morta e, ainda sentado na cadeira, descansou as costas sobre o apoio e fitou o teto apenas tempo suficiente para fechar os olhos e suspirar lamentavelmente. A puta pediu desculpas com a voz arrastada, pegou os 30 reais de Sancho e se dirigiu ao camarim para descansar ou cheirar mais algumas gramas de cocaína.

O infeliz homem puxou mais um quadradinho de seu bolso e voltou à etapa anterior. Enquanto isso, o mundo girava a seu redor, e as luzes do puteiro vertiam na solidão da madrugada - o eterno paraíso onde os copos são cheios e as mulheres são vazias.

Continue lendo...